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Fado


Óleo s/ tela

José Malhoa

1910

Dim.: 1525mm X 1855 mm
Nº Inventário: MC.PIN.1
Localização: Temporariamente em exposição no Museu do Fado

O Fado pode ser encarado como um objeto etnográfico por excelência, ou ainda como um dos aspetos centrais da cultura popular portuguesa. Povo que canta o destino, com alma, sentimentos, dando aso ao acaso e ao improviso. Virados para o mar abraçamos o horizonte e puxamos sentimentos guardados deixando vozes vibrantes cantar no sentido da alma. Mas o fado não se resume à construção as emoções do povo português.
Lisboa cidade portuária que faz sonhar com novos mundos, ponto de partida e de chegada, cidade de marinheiros e de viajantes. Imaginar a cidade noutros tempos faz sonhar como seria a vida, o destino dos seus habitantes, qual o seu fado?
Um enorme misticismo remete-nos para os meandros da cidade, as pessoas que a habitam. Em traços de cor e sons ficamos com os sentidos apurados.

O fado nasceu, foi construido e projetado num e de um meio popular. Falar de Fado é falar de dois polos que se atraem e se repulsam não esquecendo a história que carrega.
Numa primeira fase do século XIX podemos identificar o fado como um fenómeno musical numa breve contextualização histórica de 1801 a 1834 Portugal passa por uma invasão Espanhola às terras de Olivença, as tropas de Napoleão em território nacional de 1808 a 1811, já em 1820 passamos por uma Revolução Liberal e em 1822 D. João VI regressa do Brasil depois da independência do pais, com o seu regresso e da criadagem assiste-se a um aumento da população local. De 1828 1834 uma guerra civil que com a vitória de D. Pedro e o fim do antigo regime, das ordens religiosas e do trafico de escravos verifica-se uma abordagem a novos modelos na sociedade e por sua vez da sua representação. A instabilidade que se fez sentir só abranda na segunda metade do século XIX, onde se encontrou estabilidade institucional e jurídica. É neste ambiente e inserido neste contexto que o Fado foi identificado primeiramente na cidade de Lisboa, pela voz da mulher que lhe deu voz, Maria Severa. 

Maria Severa 


Esta mulher viveu nos períodos de maior turbulência desde a Revolução Liberal de 1820 à Revolução da Maria da Fonte (1846).
O mito existente entre a relação de Maria Severa e um aristocrata faz os polos da sociedade tocarem-se na história das praticas sociais e culturais implicadas no fado, verificamos assim a interação entre aristocracia e povo.
Usando uma lupa para ver de perto a população da altura conseguimos ver a uma população iletrada e marginal, muitas pessoas sem emprego estável. Por sua vez uma aristocracia, regra geral, retrógrada, vivendo a perda do seu estatuto, temos também uma classe operária protagonista das primeiras greves nas indústrias e resta ainda uma pequena e média Burguesia.
A classe operária vê no Fado uma forma de luta e utiliza-o como meio catalisador das suas sociedades, procurando nele uma voz de luta e uma forma reivindicativa e definidora de direitos e valores de quem lhe dá voz.
Já a pequena e média burguesia que frequentava o teatro de revista torna esse o veiculo para a fixação do fado como cânone e o meio mais eficaz para a sua difusão pelo pais.

O Fado ganha protagonismo 


O fado é acima de tudo uma forma de sociabilizar associada ao ócio e ao lazer de quem frequenta cafés e restaurantes. Este é um meio utilizado para reproduzir a sociedade da época numa narrativa histórica e atemporal.
Outra dualidade no Fado: Razão e Paixão, esta abordagem muitas vezes feita por sociólogos, antropólogos. Um dos mais importantes etnólogos Rocha Peixoto disse em 1897 “cruel e triste fado, denuncia um traço de decadência”
Vários discursos sobre o fado foram feitos e destacam-se dois períodos. O primeiro refere-se aos anos 10 do século XIX em que “o fado como um mal causador de males” distinto de um fado como “instrumento importante para a transmissão de valores”. Um segundo período refere-se aos anos anos 30 do século XIX e surge nesta altura a discussão acerca da defesa ou rejeição do Fado.
Resumindo o Fado passou por inúmera variações temporais e se nos anos 30 do século XIX a Severa e o Conde do Vimioso ajudaram a precisar o fado numa perspetiva mítica, nos anos 60 surge uma nova fase que inaugura um processo de definição de vários géneros de Fado e também vários modos de os executar. Já no último quartel do século XIX, surge uma dupla associação social do Fado: uma corrente aristocrática e uma circulação em ambiente popular. O Fado seria desta forma excelente para realizar uma crónica dos meios populares da cidade.
Após a implantação da República em 1910 assistimos à sua propagação aumentando visivelmente os locais onde se cantava.
Nos anos 20 discute-se se o Fado deve continuar nos meandros onde nasceu ou se por sua vez deve ser levado para as grandes salas de espetáculos. O golpe de estado de 1926 põe fim ao regime republicano e vai interferir na dinâmica da cidade criando instituições de controlo que bloqueiam e esterilizam a evolução social. Os poemas são censurados, a versão dinâmica desta prática é bloqueada e a expressão popular do improviso é abalada.
Amália Rodrigues nos anos 40 restabelece esta forma musical, dando-lhe um forte impulso e uma inegável e louvável visibilidade.

Amália Rodrigues 


Atualmente o Fado é um dos maiores pilares da cultura popular portuguesa e a voz de um povo que canta a saudade num destino consentido ou não. A própria palavra Fado vem do latim fatum isto é “destino”, remete também para os cânticos dos Mouros, que permaneceram no bairro da Mouraria em Lisboa após a conquista cristã podendo então associar-se essa forma de cântico ao Fado ainda que de forma ingénua segundo especialistas na área de etnomusicologia.
O Fado é envolvido em todo o seu misticismo e história e requer silêncio para ser cantado, respeito pelos artistas e pelo momento. O fadista canta de pé acompanhado normalmente por dois tocadores um de guitarra portuguesa e outro de viola posicionados atrás do fadista. O espaço é normalmente intimista e a luz é reduzida ou mesmo à luz de velas, o traje é escuro e o xaile preto na fadista é um acessório em destaque. Até aos anos 30 o xaile usado era colorido e muito popular em dias festivos, Amália introduziu o xaile preto.
Hoje em dia o Fado é um símbolo não só de uma cidade como Lisboa e Porto ou posteriormente Coimbra com a tradição do Fado Universitário mas o símbolo de todo o pais, é intemporal e sofreu estereótipos da própria sociedade contudo sobreviveu ao tempo, sabendo reinventar-se e legitimar o seu estatuto. 

Cartaz da época

Foi inspiração para pintores, poetas, artistas, músicos, encenadores e tem atualmente uma presença marcada na cidade de Lisboa através das inúmeras casas de fado das quais destaco a Tasca do Chico no Bairro Alto. Existe também um Museu em Lisboa onde podemos encontrar um acervo significativo sobre esta temática. O fado já é património cultural imaterial da humanidade.  

O cruel e triste Fado
Rocha Peixoto
Introdução de João Leal

O Fado e a cidade
Joaquim Pais de Brito
Entrevista conduzida por José Manuel Sobral
Penélope: Fazer e desfazer História
Publicação quadrimestral – nº 13 - 1994

O Fado é o coração: o corpo, as emoções e a performance no Fado
Paulo Valverde

Museu do Fado
Largo do Chafariz de Dentro, N.º 1
1100-139 Lisboa
http://www.museudofado.pt/
Como chegar
Comboio
Estação Santa Apolónia
Metro
Estação Santa Apolónia
Autocarro
28, 735, 794, 745, 759, 790






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