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Calçada Portuguesa

Foto: Luís Ponte
Cais do Sodré


A civilização que lhe deu origem Remonta à Mesoptânia (III milénio a. C) a calçada, mosaico ou empedrado artístico. O mosaico conheceu o primeiro período de ascensão com os gregos helenísticos, que passaram a sua aplicação aos romanos. O mosaico marcou também posição influente no mundo muçulmano, que o usou em grande escala, e em civilizações ameríndias, particularmente no México e no Perú (REGO, 2000).
João Oleiro um dos principais vultos da arqueologia portuguesa do século XX refere que a época de maior florescimento do mosaico romano em Portugal dar-se-á entre os séculos II e IV e as principais aplicações localizam-se eminentemente a sul do Tejo, o que ocorre ao mesmo tempo que o desenvolvimento da romanização e independentemente da facilidade na obtenção da matéria prima,predominantemente calcário.
Maioritariamente os mosaicos de idade Romana em Portugal são do tipo opus tessellatum (tesselas com cerca de 1 cm de tamanho) associando por vezes a técnica do opus verniculatum (tesselas muito pequenas e pasta de vidro) nos motivos ou figuras de menores dimensões. Dado o custo e a sua resistência os romanos não empregavam o mosaico na pavimentação de ruas ou grandes espaços públicos. A calçada portuguesa ganha mérito na escolha de materiais à escala urbana dando assim a possibilidade de execução em grandes superfícies e resistente ao tempo e ao desgaste (AMARAL & SANTA-BÁRBARA, 2002).

Por iniciativa do então Governador de Armas Tenente-General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, no ano de 1842 a calçada portuguesa, em calcário e/ou basalto, foi aplicada pela primeira vez em Lisboa, na parada do quartel do Castelo de S. Jorge onde formava o Batalhão de Caçadores 5.(CABRERA & NUNES, 1990).
Era uma novidade, fez sensação! Estabeleceu-se romaria ao Castelo de S. Jorge, para ver a calçada mosaico; a maioria compreendeu logo que era bom o sistema, bonito, económico e que devia generalizar-se...”. Eng. Miguel Pais, em 1883 no Diário de Notícias (in BAIRRADA, 1985)

Guedes, Paulo (1889- 1947) Praça Dom Pedro IV – Rossio 1919

Fonte: Arquivo fotográfico de Lisboa


A Câmara de Lisboa reconheceu o enorme sucesso da calçada que concedeu ao Tenente–General verbas para a pavimentação do Rossio (8 712 m2). De Agosto 1848 a Dezembro 1849 foi o tempo que demorou a pavimentação do Rossio e o desenho eleito foi o padrão ondulado em preto e branco, conhecido por todos mar largo.

Mar Largo 1940
Fonte: Arquivo fotográfico de Lisboa


O grande impulso deu-se no séc. XX, a calçada progressivamente propagou-se e alastrou-se por todo o país ganhando protagonismo nos centros urbanos situados em pontos das principais vias de comunicação (CABRERA & NUNES, 1990).
O primeiro trabalho de calçada portuguesa aconteceu na cidade do Porto em 1843, aquando se substituiu o pavimento da Praça Nova hoje em dia atual Praça de D. Pedro em macadame pelo ladrilhado português de pedras brancas e negras efetuado por artistas que se deslocaram de Lisboa (DIAS & MARQUES, 2002).

António (1901- 1987) Caravela Portuguesa, armas da cidade de Lisboa – Praça Marquês de Pombal 1944
Fonte: Arquivo fotográfico de Lisboa


A riqueza e a originalidade das calçadas portuguesas é, talvez, a maior contribuição do nosso País em matéria de qualidade no mobilar dos espaços urbanos”. (AMARAL & SANTA-BÁRBARA, 2002). Assistimos a um mero utilitarismo e avançamos para o belo, original, único e que merece ser apreciado, preservado e divulgado ontem, hoje e amanhã.
Decorria o ano de 1913 e foi realizada em Lisboa, uma importante prova de cariz internacional de calcetamento, na qual foram convidados inúmeros dos melhores artífices nacionais e estrangeiros. Os portugueses obtiveram o 1º lugar, nas três modalidades a concurso: calçada de luxo, calçada mais resistente e calçada mais económica. Esses resultados contribuíram visivelmente, na altura, para o reconhecimento internacional desta atividade artística tão portuguesa.


Vários foram os momentos em que esta arte se destacou a nível internacional:
  • 1900, em Paris, na Exposição Universal, com o passeio em volta do pavilhão português;
  • 1905, em Manaus;
  • 1906 no Rio de Janeiro, na pavimentação da Avenida Rio Branco;
  • 1909, na cidade do Cabo;
  • 1913 em Génova e Nápoles;
  • 1929, em Sevilha, no pavilhão de Portugal, por altura da Exposição Ibero-Americana e nesta mesma cidade
  • 1969, no Parque Maria Luísa, o emblema da Junta Nacional dos Produtos Pecuários que recebeu muitos elogios;
  • 1974, em Nova Iorque, por convite do antigo governador Nelson Rockfeller, foram embelezados passeios e parques desta cidade (BAIRRADA, 1985).
  • Cartaz da Feira Internacional de Lisboa sobre o Salão Internacional de Rochas Ornamentais (Maio de 1983) que tinha uma estrela de centro sextavado;
  • a inclusão pelas Bibliotecas Itinerantes, da Fundação Calouste Gulbenkian, das ondas de “Mar Largo” no seu logótipo (BAIRRADA, 1985),
  • motivo em tempo também utilizado pela EPAL (Empresa Pública de Águas Livres)
  • A Exposição Mundial de 1998, em Lisboa,
  • A residência oficial do Sr. Primeiro-ministro, que possui calçada portuguesa
  • Na sessão de abertura do Euro 2004 no Estádio do Dragão, o relvado do estádio apareceu revestido por uma cobertura com desenhos de calçada portuguesa;
  • Os bilhetes e os cartazes de anúncio da final da Taça UEFA, Lisboa 2005
  • Delta Cafés na comemoração de 20 anos na Comunidade Europeia, introduziu motivos de calçada portuguesa nos pacotes de açúcar
  • Memorial a John Lennon, no Central Park em Nova Iorque, um dos meus exemplares preferidos de calçada  que se encontra fora de Portugal 

Em espaços privados podemos encontrar a calçada portuguesa
  • Residências
  • De porta aberta (cinemas, teatros, etc)
  • Autónomo (centros comerciais, igrejas, quarteies, etc)
  • Estacionamentos  

    Em espaços públicos podemos encontrar a calçada portuguesa
    • Avenidas
    • Largos
    • Parques e Jardins
    • Praças
    • Ruas
    • Cemitérios
    • Piscinas
    • Mercados  
      Fonte: BAIRRADA, 1985


      Existem imensos desenhos, da calçada portuguesa, por todo o país, podendo mesmo repetir-se. Os desenhos traduzem simbologias locais, relacionadas e associadas à economia, mitos e tradições locais. 

      Alguns dos desenhos da calçada em Lisboa MARTA, P (2006) 


      Inicialmente os primeiros trabalho foram executado por presos, denominados na época por grilhetas. Durante muito tempo, os desenhos eram elaborados por amadores com perícia. Só após os anos 50, alguns artistas plásticos tais como Abel Manta ou Clara Smith, foram convidados a elaborar trabalhos para a calçada. Atualmente, muitos arquitetos reconhecidos são responsáveis pelos desenhos dos pavimentos.
      A calçada portuguesa resulta de duas fases distintas da sua produção. Primeiro a fase da exploração da pedra, em que a matéria prima, a rocha sofre a transformação em cubos de alguma forma regular. Por sua vez a segunda fase corresponde à colocação dos cubos assentes no solo de forma adequada e harmoniosa. Assim temos a calçada portuguesa tal como a conhecemos por esse país e mundo fora. Apresentando padrões, formas, cores, durabilidade, arte e orgulho dos muitos que se passeiam por essas pedras que mais parecem palcos com vida própria e que guardam histórias. É uma leitura subtil! 

      AMARAL, F. & SANTA-BÁRBARA, J. (2002) – Mobiliários dos espaços urbanos
      em Portugal. João Azevedo Editor
      BAIRRADA, E. M. (1985) – Empedrados Artísticos de Lisboa: a arte da calçada mosaico.
      CABRERA, A.; NUNES, M. (1990) – Olhar o Chão, Imprensa Nacional - Casa
      Moeda, Lisboa.
      DIAS, M. & MARQUES, M. (2002) – Porto Desaparecido, Quimera Editores, Lda.
      MARTA, P (2006) – Exploração de calcários para a calçada portuguesa – um georrecurso educativo para o ensino secundário. Tese de Mestrado FCT/UNL
      REGO, V. D. (2000) - Calçada artística nos passeios de Ponta Delgada

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